segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A infância em Angola

Eu não era um rapaz, mas também não era completamente "uma menina"... acho que me diverti quase tanto como "eles"...

http://www.escreveretriste.com/2014/01/carta-de-angola/

sábado, 21 de dezembro de 2013

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

As laranjas de Angola e como uma "besuga" me calou




Mangas, bananas, goiabas, mamões, sape-sape, anonas, pitangas, maboques, cocos, abacates, laranjas… as doces laranjas do Loje… (pausa para agradecer a Deus e aos meus pais o privilégio de ter crescido em Angola), no que respeita à fruta esta era a minha realidade. 

A meio da adolescência apareceu no Colégio, uma colega acabadinha de chegar de Lisboa.

Branquinha, rosadinha, de olhos azuis e laçarote no alto da cabeça. A típica “besuga”, nome que nós dávamos às pessoas que iam da Metrópole e não tinham a nossa cor permanentemente bronzeada.

Ficou na minha mesa e as refeições eram uma chatice, com ela sempre a desdenhar “mamão? Que coisa mais esquisita… não sabe a nada. Bananas, anonas, goiabas? Não gosto!”

Até que um dia nos puseram laranjas na mesa. E a chata: “devem ser azedas”. “Não! São muito doces, experimenta”. E a besuga a insistir “São azedas, não vêm como são amarelas?” Então, eu cheia de uma infinita e paciente tolerância pergunto-lhe “Olha lá, de que cor queres tu que sejam as laranjas?”. “Cor-de-laranja” responde ela.      
Em 1971, acabado de chegar a Luanda, o meu "besuguinho" querido, lourinho, branquinho e rosadinho. A brincar com as laranjas amarelas.... de que outra cor haviam de ser as laranjas?

Alexandre O'Neill nasceu no dia 19 de Dezembro de 1924

Auto-retrato

O’Neill (Alexandre), moreno português, ...

cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.

Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)

No amor? No amor crê (ou não fosse ele O’Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil

que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...

Versão musical do Calendário do Advento. Dia 19. Andrea Bocelli e Natalie Cole - Christmas song live 2009


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Aqui está o verdadeiro espírito natalício

O Carlos, pitosga e distraído, foi contra o vidro da porta da garagem de um Centro Comercial e fez um golpe profundo no nariz. O sangue espirrou e pingou para o chão enquanto ele o tentava estancar com um lenço já empapado.
Estava sozinho e a dor era tão grande que pensava ter partido a cana do nariz. Entretanto viu uma senhora aproximar-se com ar preocupado. Normalmente, nestas alturas as pessoas perguntam "precisa de ajuda... quer que chame alguém?"
Mas estamos em plena época natalícia em que a solidariedade e o amor ao próximo se reforçam e estão no seu máximo esplendor.
Inquieta, a senhora chegou perto do Carlos e perguntou-lhe: "este é o piso -1 ou -2?".
O Carlos respondeu: "-1". "E onde é que fica a saída do supermercado?". "Ali".
A senhora agradeceu e foi-se embora.
 

Versão musical do Calendário do Advento. Dia 16. White Christmas - Bing Crosby


domingo, 15 de dezembro de 2013

Monstros antropomórficos

Manhã de sol e céu azul como só Lisboa tem. Não há vento, coisa rara por estes lados, a temperatura é de um fresco lavado e os plátanos largaram as folhas que enchem os passeios de tons que vão do amarelo ao ocre.

Nós vamos a caminho de uma torrada em pão de Mafra, de uma meia de leite e da leitura do jornal. Tranquilos e de coração leve.

Na nossa direcção vem mais um madrugador. Terá cerca de quarenta e muitos cinquenta anos e está vestido de fim-de-semana, classe média, normal. Como nós.

Pára à nossa frente, hesitante e embaraçado. E fala baixo, envergonhado, com os olhos a piscarem num esforço para não chorar.

Está desempregado. Não tem dinheiro e a mulher está em casa doente. Classe média, normal. Como nós.

Em Portugal há quase 900 mil desempregados. A cada desempregado estão ligadas pessoas. 900 mil dramas vezes quanto?

Fomos educados numa cultura judaico-cristã que nos transmitiu conceitos de pecado e castigo, de culpa, arrependimento e perdão. Eu aprendi a lição e por isso não perdoo a esta gente gananciosa que durante décadas, se serviu e teceu a rede de cumplicidades que atirou o país e as pessoas para o desespero.

Estas criaturas que de pessoas só têm a aparência física, arranjaram forma de escapar à Justiça dos homens, mas não escaparão à Justiça Divina nem à minha praga rogada com tanta raiva: desejo-lhes que ardam no inferno. Em vida e depois de mortas.
Afinal o dia está frio, sombrio e o chão coberto de folhas mortas e apodrecidas. Não devíamos ter saído de casa.

Versão musical do Calendário do Advento. Dia 15. Queen - Thank God it's Christmas